Campeonato 5ª Rodada 09/10/1949: Roma 3-1 Bologna

Mais um ano batendo na trave. O torcedor da Roma sabe bem o que é essa sensação. No contexto do final da década de 1940, entretanto, ela vinha recheada de alívio ao invés de decepção. O clube não lutava pelo título, mas contra o rebaixamento. O cenário era triste e sequer havia condições de sonhar. Ainda assim, Pier Carlos Restagno, novo presidente giallorosso, busca uma retomada dos tempos de glória e contrata os velhos conhecidos Fulvio Bernardini como treinador e Bodini como auxiliar. Após a tentativa de Senkey, anos antes, a Roma novamente iria jogar no Sistema – a tática de jogo ganhava ainda mais importância após a trágica morte do timaço do Torino, que a aperfeiçoou e popularizou. Bernardini ainda se tornaria um grande técnico e ganharia títulos utilizando o Sistema, mas a Roma estava longe deste patamar.

Para colocar em prática o esquema, muitas contratações com pouco dinheiro. As principais foram o zagueiro Tre Re e os meio-campistas Zecca e Merlin. Além disso, já com a temporada em andamento, a Roma acerta com o centroavante Aleksandar Arangelovich, ex-Padova, que chega na capital e imediatamente já fica à disposição de Bernardini. O sérvio, inclusive, sem lugar para morar, fica em um campo de refugiados em Roma. Nada mais eloquente sobre a situação do clube e do futebol italiano como um todo. Mesmo nesse cenário, Arangelovich termina como artilheiro da Roma na temporada, com 11 gols.

Na estreia, ainda sem Arangelovich, o time vence o Pro Patria por 2 a 0. Em seguida, três derrotas, incluindo um 4 a 1 para a Fiorentina. Contra o Bologna, em casa, a equipe volta a vencer, 3 a 1. E novamente sofre três derrotas duríssimas em sequência, para Palermo (3 a 0), Lazio e Inter (3 a 1). Foi ficando cada vez mais claro que o campeonato da Roma era, novamente, pela salvezza, e as críticas a Bernardini começavam a aumentar, inclusive de dentro da diretoria. O time segue até o fim do primeiro turno com os altos e baixos de sempre, mas conquistando pontos importantes, cortesia dos reforços, principalmente Merlin e Arangelovich.

Em dezembro, após uma derrota de 3 a 0 para a Juventus, fora de casa, Bernardini balança no cargo. Um mês antes, o presidente Restagno havia passado a responsabilidade de gestão de facto do clube para dois de seus vice-presidentes. Um deles foi Renato Sacerdoti, histórico ex-presidente da Roma, que precisou fugir da capital por conta do nazifascismo. Ao seu lado, Pietro Crostarosa também assume o dia-a-dia do clube. Já na reta final do ano, entretanto, o presidente retorna ao cenário e pressiona os dois novos manda-chuvas a demitirem o treinador. No jogo seguinte ao de Turim, o time responde e vence o Venezia (3 a 2). Bernardini ganha uma sobrevida e, na véspera de natal, a Roma atropela o Bari por 6 a 0. Claramente jogando pelo técnico, a equipe ganha mais duas, contra Novara (2 a 0) e Milan (1 a 0), encerrando o primeiro turno no meio da tabela.

Alegria de romanista dura pouco, é claro. Nas primeiras dez rodadas do returno, o time perde cinco jogos, incluindo chocolates de Padova (4 a 1) e Torino (5 a 0). As únicas vitórias vêm contra Genoa (3 a 0) e Palermo (2 a 1). Mas o pior ainda estava por vir. Nas próximas rodadas a Roma emplaca uma série de três derrotas e Bernardini chega ao jogo contra o Como, em casa, pressionadíssimo. Jogando mal, o time perde por 1 a 0 até que, nos acréscimos, o árbitro assinala um pênalti. Era a chance de encerrar a sequência. Andreoli chama a responsabilidade, cobra a penalidade e acerta a trave. O jogo termina. A Roma fica um único ponto acima da zona de rebaixamento pela primeira vez.

Bernardini entrega o cargo no dia seguinte, mas os jogadores se desesperam. Querem a permanência do técnico e a diretoria, vendo o clamor do elenco, aceita. Duraria apenas mais duas semanas. No meio do caminho, um triunfo improvável e fundamental sobre a futura campeã e então líder invicta Juventus, por 1 a 0 (gol de Zecca), dá à Roma sua primeira vitória em dois meses. Foi o presente de adeus do treinador. O time perde para o lanterna Venezia (2 a 1) na outra semana e a demissão se torna inevitável. Luigi Brunella, que treinava a base, assume o time a três rodadas do fim do campeonato. Em duas delas, confrontos diretos pela salvezza. O drama romanista é intenso.

Contra o Bari, fora de casa, empate em 1 a 1. De pouco adianta.

Em casa, ante o Novara, muita polêmica. A Roma chega ao intervalo perdendo por 1 a 0 e, no segundo tempo, vira com gols de Arangelovich e Tontodonati. O primeiro, após pênalti contestado pelos adversários. O segundo, em lance de disputa de bola com o goleiro do Novara, que pediu falta. O capitão azzurro, Silvio Piola, foi expulso após discutir com o árbitro. Em campo, a Roma vence, mas fora dele, os adversários pedem a anulação da partida. Não havia, entretanto, respaldo sobre a acusação de que o juiz da partida era mal intencionado, e o regulamento, é claro, não permitia a anulação do jogo sem comprovação de má fé. Por conta disso, em uma manobra voltada para uma brecha no regulamento, o clube azzurro muda de rota e pede que a partida seja jogada novamente por “comprometimento da integridade física do árbitro”. Quase deu certo.

Após alguns dias de idas e vindas legais, a Lega chegou a anunciar, em meio a punições de multa para o próprio Novara e suspensões dos envolvidos na briga, a realização de um novo jogo. Mas com um detalhe, conforme previam as regras: embora fosse ocorrer na capital, o clube piemontês, tão endividado quanto a Roma, arcaria com os custos da partida, afinal a confusão fora causada por seus jogadores. Rapidamente, a verdade veio à tona. Os Gaudenziani já se preparavam para desistir da alegação quando observadores neutros constataram que não houve o tal “comprometimento da integridade física do árbitro”. O resultado conquistado em campo foi, finalmente, homologado. A Roma havia vencido por 2 a 1, de virada, e chegava na última rodada dependendo apenas dos próprios esforços.

Quem é romanista sabe, porém, que depender de si não é exatamente o forte do clube giallorosso. Nunca foi. Em circunstâncias tragicômicas, a Roma apanha de 6 a 2 frente ao Milan e se vê precisando secar Bari ou o próprio Novara para se salvar. Os adversários da penúltima rodada, agora dentro de campo, vencem o Palermo (2 a 1) e respiram aliviados. Já o Bari não teve a mesma sorte. Lutou muito, mas perdeu para a Inter por 3 a 2 e foi rebaixado. Por apenas dois pontos, os giallorossi alcançam o medíocre objetivo da temporada e se mantêm na Serie A por mais um ano. Sim, apenas por mais um ano. Na virada da década, após tanto bater na trave, o fundo do poço infelizmente chegaria.

@gioguerreiro

1948/49


F I C H A
  • 1949/50


    Campeonato: 18ª Posição

    Vitórias: 12
    Empates: 7
    Derrotas: 19

    Arangelovic : 11 gols
    Tontodonati : 10 gols
    Zecca: 8 gols
    Bacci, Merlin: 6 gols
    Spartano: 4 gols
    Lucchesi: 2 gols
    Pesaola, Venturi: 1 gol

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