Copa Itália (Oitavas de Final): Roma 2-1 Triestina, 27/09/1942

Após conquistar o primeiro grande título de sua história, a Roma se preparava para a temporada 1942/43 rodeada de expectativas. Não havia mais competições europeias para as quais se classificar com a campanha extraordinária de 1941/42 – a Copa Mitropa fora suspensa anos antes por conta da Guerra – e o foco romanista era todo no âmbito nacional: repetir a façanha e quem sabe levar também a primeira Coppa. Para isso, a equipe do scudetto foi mantida, com a bênção do presidente Edgardo Bazzini. Uma ou outra contratação de menor impacto foi efetuda, em especial o ex-laziale Dagianti, que teria papel central no episódio final do ano romanista; mas vamos com calma.

A temporada teve início, de imediato, com dois jogos eliminatórias pela Coppa Italia. Na fase dezesseis-avos-de-final, a Roma bateu o Bari fora de casa com estilo, por 3 a 0. E na semana seguinte, venceu também a Triestina, em casa, por 2 a 1, para garantir a vaga nas quartas-de-final. O duelo seria contra a arquirrival Lazio, mas só após o fim do campeonato.

Campeonato que, aliás, começa razoável, com duas vitórias e dois empates. Em seguida, a Roma recebe o Torino no Stadio Nazionale. O brutal 4 a 0 administrado pelos granata foi apenas o primeiro baque. Na semana seguinte, os giallorossi viajavam para Gênova, onde teriam partida contra o Liguria. No meio do caminho, devido a um bombardeio, o trem que levava a equipe parou silenciosamente dentro de um túnel, tentando fugir das explosões. Não bastasse o medo e o suspense que certamente perpassavam os vagões, pouco depois um segundo trem apareceu e não conseguiu parar. O choque foi brutal e causou pânico no túnel, mas não teve velocidade suficiente para deixar vítimas fatais. Entre os feridos, Guido Masetti, goleiro e ídolo da Roma. O resultado da partida, depois de tudo, era o menos importante – um retrato do futebol como um todo em períodos de guerra. Mas a Roma não perdeu por W/0, o jogo foi adiado com a compreensão e apoio total do Liguria. Mais um daqueles exemplos da beleza que o esporte carrega justamente em períodos sombrios.

O enorme susto, entretanto, faz com que o treinador Alfred Schaffer deixe o time um mês depois, para reencontrar a esposa, que morava na Alemanha. Pouco depois, Masetti também decide se aposentar por problemas físicos e a temporada da Roma no campeonato oficialmente afunda. Quem assumiu o comando técnico foi o também húngaro Géza Kertész. Com ele à frente, a Roma não empata um jogo sequer, mas também não vence tantos assim. Em destaque, os triunfos sobre a Lazio (1 a 0), Ambrosiana-Inter (2 a 0) e Juventus (2 a 1). Além disso, após a definição da nova data para o jogo contra o Liguria, em Gênova, descobriu-se que por coincidência os giallorossi os enfrentariam em partidas consecutivas. A primeira, recuperação do confronto adiado do primeiro turno, terminou em um sonoro 3 a 0 para os adversários. Três dias depois, em Roma, o time de Kertész deu o troco: 5 a 1, com quatro gols de Amadei, novamente artilheiro da temporada.

Com a 11ª posição no campeonato definida após derrota para a Triestina (2 a 0) em Trieste, a equipe romanista voltava os olhos para a Coppa Italia. E foi nela que Dagianti, aquele lá do início, teve papel importantíssimo. Primeiro, no dérbi pelas quartas-de-final, o ex-laziale marcou contra seu antigo clube e selou a vaga romanista para as semifinais em vitória por 2 a 1. Segundo, e mais importante, na derrota ante o Torino.

O jogo estava 2 a 1 para os granata quando o goleiro giallorosso Blason, substituto de Masetti, faz uma defesa espetacular em cima da linha e mantém a Roma no jogo, lutando pelo empate. O árbitro, entretanto, valida o gol e é alvo de justa reclamação por parte dos jogadores romanistas. Só que injusto, é claro, foi o pontapé que um dos jogadores desferiu nele. Atordoado, o juiz paralisa o jogo, declara vitória por W/0 para o Torino e aponta Amedeo Amadei como autor do chute. Por agressão, o artilheiro e ídolo da Roma seria suspenso do futebol para o resto da vida. Meses depois, no entanto, a punição foi revertida, após a descoberta que fora Dagianti o agressor.

O Torino sagrou-se campeão da Coppa, conquistando a primeira dobradinha da história, a caminho de se tornar a grande squadra dos anos 1940. E assim se encerrou a última temporada “normal” de futebol na Itália antes dos piores horrores que a II Guerra Mundial teria a oferecer. Uma temporada de poucas vitórias e muitos traumas para a Roma. Nenhum, entretanto, se compara a todo o sofrimento das vítimas do nazifascismo e também das vítimas civis espalhadas pelo mundo, assassinadas tanto pelo Eixo quanto pelos Aliados. Vidas comuns, independente de quais fossem e de onde vivessem, brutalmente interrompidas pela Guerra.

@gioguerreiro

1941/42 1943/44


F I C H A
  • 1942/43


    Campeonato: 11ª Posição

    Vitórias: 12
    Empates: 4
    Derrotas: 14

    Amadei: 14 gols
    Pantò: 8 gols
    Coscia: 3 gols
    Dagianti, Donati, Mornese : 2 gols
    Andreoli, Benedetti, Brosetti, Cappellini, De Grassi: 1 gol

    Copa Itália: Semifinal

    Vitórias: 3
    Derrotas: 1

    Amadei, Krieziu: 2 gols
    Krieziu: 5 gols
    Pantò: 4 gols
    Borsetti, Donati, Dagianti: 1 gol

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