22ª Rodada Fiorentina 1-2 Roma, 8/03/1936

Foi rápida e dolorosa a participação romanista na Copa Mitropa de 1935. Como sempre, a competição se iniciava ainda durante o período de intertemporada, e a Roma aproveitaria a estreia para inserir na equipe um novo contratado: o defensor Eraldo Monzeglio, ex-Bologna e campeão mundial com a seleção italiana no ano anterior. O jogo foi na Hungria, contra o Ferencváros, e a Roma saiu vencedora por 3 a 1. Na volta, os húngaros humilharam o time da capital por 8 a 0 e passaram para as quartas-de-final, a caminho do vice-campeonato. E os olhos giallorossi se voltavam cabisbaixos para o âmbito nacional.

E foi uma temporada que começou cheia de motivos para desânimo. O regime fascista, em vigor sob o comando do ditador Benito Mussolini desde 1922, começava a fechar o cerco do preconceito e dos crimes institucionais de ódio contra diversos setores da sociedade, incluindo o povo de origem judaica – que culminaria na proclamação das leis raciais fascistas em 1938. Era o caso de Renato Sacerdoti, talvez o mais querido presidente da Roma entre os que não venceram nenhum título. Sacerdoti deixou a chefia do clube para lutar pela sua vida e pela sua dignidade. Foi acusado de crimes fiscais como fachada para ter prisão decretada e passou mais de uma década fugindo das atrocidades cometidas pelo regime.

Para o lugar de Sacerdoti, assumiu por apenas cinco meses Antonio Scialoja, simpatizante da ditadura que sequer de futebol gostava. Durou apenas até novembro, quando Igino Betti, também homem do aparato fascista, tornou-se presidente. Não seria a primeira nem a última vez que fascistas teriam protagonismo no clube – que afinal havia sido fundado já em uma sociedade contaminada por essa escória –, mas à essa altura, ainda que fosse impossível escapar das garras do regime naquele período, a Roma já possuía uma torcida forte, independente e que se estabelecia de forma cada vez mais popular. O torcedor já era – e seria ainda mais nas décadas seguintes, em especial após o fim da II Guerra Mundial – o responsável por guiar o clube a caminhos melhores, para se tornar o que é hoje.

Dentro de campo, aliás, os caminhos já seriam melhores naquela temporada, ainda que tudo parecesse conspirar contra. Antes de deixar o clube, Sacerdoti deixou engatilhados os reforços Allemandi e Cattaneo, enquanto Eusebio, Costantino e Bodini foram embora – para ficar apenas nas principais movimentações do mercado. Houve também mais movimentações, que nada tinham a ver com o mercado. A partir de outubro de 1935, a Itália iniciou uma guerra genocida na Abissínia (atual Etiópia) para anexação do país à África Oriental Italiana – formada também pela Eritreia e por parte da Somália. Com medo de serem chamados para servir o exército que assassinou mais de meio milhão de etíopes, os argentinos Guaita, Scopelli e Stagnaro, oriundi que tinham chegado à capital dois anos antes, fugiram do país e voltaram para a América do Sul. Nunca se soube se o receio dos três tinha fundamento – há relatos de que o presidente da federação italiana, o laziale e também fascista Giorgio Vaccaro, os convencera –, mas a fuga ocorreu às pressas, dias antes do início do campeonato, e a Roma sentiria falta deles. Principalmente, é claro, de Guaita, que havia sido artilheiro com sobras na temporada anterior.

A Roma ainda fez contratações em cima da hora, tentanto remediar a situação, mas o principal mesmo na campanha foram os jogadores que ascenderam da provável reserva ao status de pilares da equipe, como Gadaldi, Subinaghi e D’Alberto. O time poderia ser um esquadrão, mas com os problemas de última hora foi necessária paciência. Por isso, foi com uma equipe em formação que, naquela temporada, a Roma joga a primeira Coppa Italia de sua história – terceira a ser disputada e segunda a ir até o final, já que a edição de 1926/27 fora interrompida. Foram apenas dois jogos, em dezembro de 1935 e janeiro de 1936, já que a Roma eliminou o Foggia (4 a 0) e caiu frente a Lazio (2 a 1) nas oitavas-de-final.

Enquanto isso, no campeonato, o técnico Luigi Barbesino tinha dificuldade para montar o esquema ofensivo, que demorou a engrenar. Após dezessete rodadas, o time coleciona seis vitórias, cinco empates e seis derrotas, posicionado no meio da tabela. A defesa era a melhor do campeonato – e seria até o final –, mas o ataque era o pior. Até que, fora de casa contra o Napoli, Barbesino coloca em campo Di Benedetti, que após cinco minutos marca. A Roma volta a vencer após cinco jogos e o atacante vira o novo talismã de uma equipe em plena ascensão.

Dali em diante, a Roma bate Lazio (1 a 0), Ambrosiana-Inter (5 a 1), Bari (3 a 0) e Fiorentina (2 a 1), para chegar ao duelo diante do líder Bologna apenas cinco pontos atrás do topo da tabela. Em Testaccio, a Roma vence por 1 a 0 e entra de vez na briga pelo título. A série invicta continuou, incluindo uma vitória em Turim sobre a quinta colocada Juventus (3 a 1), mas ao empatar com o lanterna e já rebaixado Brescia (1 a 1), a Roma perde a chance de encostar de vez no Bologna, que havia ficado em igualdade com a Lazio. Caso vencesse, o time romanista poderia ter ultrapassado os adversários pelo título na rodada seguinte, em que eles novamente empataram, com o Bari, enquanto os giallorossi bateram a Triestina (1 a 0).

Com a vantagem mínima de um ponto, o Bologna não deu sopa para o azar nas últimas duas rodadas. Venceu Palermo e Triestina, e assim não adiantou a Roma ter feito sua parte ao bater Alessandria e Palermo. Os rossoblù conquistavam seu terceiro scudetto e o time da capital ainda buscava o seu primeiro. O gosto ruim de bater na trave, de ficar no quase, é contraposto pela magnífica e inesperada campanha, em especial diante de tantos problemas dentro e fora de campo. A remontada da equipe no segundo turno foi histórica e a luta pelo título real, ainda que ninguém acreditasse possível. Como vice-campeã, a Roma se classifica para a Copa Mitropa pela segunda temporada consecutiva.

@gioguerreiro

1934/35 1936/37


F I C H A
  • 1935/36


    Campeonato: Vice campeã

    Vitórias: 16
    Empates: 7
    Derrotas: 7

    Di Benedetti: 7 gols
    Cattaneo, Subinaghi: 6 gols
    D'Alberto : 4 gols
    Tomasi: 3 gols
    Bernardini, Gadaldi, Pastore, Scaramelli, Trombetta, Valentini: 1 gol

    Copa da Europa Central: Oitavas de Final

    Vitórias: 1
    Derrotas: 1

    Scopelli: 2 gols
    Cattaneo: 1 gol

    Copa Itália: Oitavas de Final

    Vitórias: 1
    Derrotas: 1

    Subinaghi, Gadaldi: 2 gols
    Trombetta: 1 gol

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