O Scudetto e o culme da Europa


Primeiro Tempo suplementar

Com a bola o Livepool que com uma série de passes recua a bola para o goleiro. Aos três minutos Grobbelaar sai da área para antecipar Falcão. Joga a bola no chão e toca para Nicol que apoia em profundidade Souness. O lance é interrompido por uma assinalação de impedimento logo depois do meio campo.

Um minuto depois Robinson substitui Dalglish. Aos 6' Falcão recebe bola de Graziani dentro da área; o goleiro dos reds está um pouco atrasado mas consegue fazer a interceptação antes que o brasileiro. Três minutos depois, lambança da zaga romanista: sob um lance de Kennedy, Nela bate toca com Righetti, Di Bartolomei afasta o perigo.

Aos 10'tenta Conti: chute de fora da área com a bola que passa perto do travessão a direita de Grobbelaar. Aos treze minutos os nervos começam a florir: pequena confusão na área da Roma por uma entrada de Robinson sobre Tancredi que saia para defender. Righetti e Nela defendem seu goleiro, socorre Di Bartolomei e Rush empurra fazendo-o gritar com o arbitro que pacifica os dois.

No ultimo minuto, Di Bartolomei faz um lançamento longo para Falcão que é interceptado pela zaga inglesa e Neal, no front oposto, manda pra fora.

O árbitro ordena a troca de campo, se aproxima a possibilidade da final ir para disputa de pênaltis.

O tempo regulamentar acabou. Agostino Di Bartolomei pega a bola na mão e a posiciona sob a marca do pênalti. O Olímpico está em silêncio. Poucos instantes antes Paulo Roberto Falcão havia sido derrubado na área. O árbitro Pieri não tem duvidas mesmo se a noite, os comentários de Carlo Sassi vai suar muito para lhe dar razão.

Observa Garella entre as traves, Di Bartolomei. Atrás dele fazem o mesmo jogadores de Roma e Verona.

É a segunda partida pelo campeonato de 1982/83, estréia em casa dos romanistas. Não fora uma bela partida. Contra a equipe "scaligera", a formação de Liedholm sofreu bastante, salva graças a um incansável Pietro Vierchowod que, na defesa, segurou o ímpeto dos adversários correndo o tempo todo. Não conseguira impostar seu jogo conforme esperado, o time chutou pouco ao gol. O veronês Volpati, ao contrário, ao final da ação de contra-ataque conseguira acertar o travessão.

O empate em 0 a 0 pareceu, a dois minutos do final, um resultado inevitável; também graças a Agostino, que salvou em cima da linha um chute com endereço certo.

Pruzzo o cobrador de pênaltis da equipe, deixou a cobrança para ele. O capitão não pensa muito. No palio está a vitória. Chuta firme, a direita. Como se diz, e se escreve em certos casos: "o goleiro advinha, mas não chega".

É gol. O primeiro da Roma no Olímpico, o primeiro de Di Bartolomei, a segunda vitoria dos romanistas. Agora, com 4 pontos, estão na liderança da classificação junto com Fiorentina e Sampdoria. Na semana anterior, de fato, venceu o Cagliari por 3 a 1, com gols de Faccini, contra de Lei, Piras para o time da ilha e Iorio. Para a imprensa os campeonatos ainda são com dezesseis equipes, os pontos por vitória são 2 e o goleiro pode tocar com a mão os recuos de bola dos próprios companheiros de equipe.

Relembra Tancredi: "Para cada cobrança de pênalti Di Bartolomei sempre tomava pouquíssima distancia, um pouco depois como fez Signori, e colocava a bola a direita ou a esquerda, mas jamais rasteiro. Pedia conselho a nós goleiros: "Qual é o pênalti mais fácil de pegar?", e nós respondíamos: "Aqueles a meio metro do chão". Ele então cobrava quase todos próximo ao travessão".

Entretanto, aquele penalti veio ao acaso e cobrou a meia altura, parece para muitos jogadores como uma marca do destino e entre os torcedores que saem do estádio no dia 19 de setembro e se encaminham para os quarteirões do bairro Práticas, mais que qualquer um sugere timidamente: "talvez um ano bom?".

A equipe tem que lutar sob três frontes, campeonato, Copa Uefa e Copa Itália, e por isto se reforçou a altura. Chegaram o austríaco Herbert Prohaska, da Inter que não sabia mais o que fazer; Aldo Maldera, conhecido como Maldera III, mantido pelo Milan no final da corrida; Pietro Vierchowod, o "azar", lateral muito veloz emprestado pela Sampdoria; o ponta Maurizio Iorio, que no ano anterior havia marcado 18 gols pela Série B, com a camisa do Bari.

A Roma tem também um campeão do mundo a mais, Bruno Conti. No verão, de fato, a Itália conquistara a Copa do Mundo da Espanha e o fenômeno de Nettuno fora um dos principais protagonistas da vitória Azzurra. Pelé, o grande jogador brasileiro, disse as seguintes palavras a seu respeito: "Para mim Conti é a verdadeira estrela da Espanha, o melhor jogador de todo o torneio. Talvez com relação a mim tem algo a menos como o físico e senso de gol, mas certamente alguma coisa a mais como fantasia e temperamento".

Mas entre os romanistas tem também um jogador que da Copa do Mundo voltou muito iludido: Paulo Roberto Falcão de Porto Alegre, o "oitavo rei de Roma".

Que o Brasil fosse o time mais forte foi possível entender durante a fase de grupos. Não foram poucos os comentaristas que falavam do "Brasil mais belo de todos os tempos", no qual jogava, até da estrela giallorossa, gente como Zico, Socrates, Cerezo, Eder. A torcida brasileira estava confiante no sucesso deste time que nas arquibancadas cambavam ignorando a partida.

Ninguém, mas ninguém mesmo, teria apostado uma lira no sucesso azzurro em uma daquelas partidas que ficaram para história do futebol: Italia 3-2 Brasil. Na qual para os brasileiros bastava um empate, na qual Falcão havia marcado os dois gols canarinhos empatando a partida a quinze minutos do final, mas no qual outro Paolo, o Rossi - que até então não tinha feito nada - resolveu descontar tudo naquele dia. Depois vieram as vitórias sobre a Polonia e Alemanha Ocidental na final em Madrid.

Agostino não foi para a Copa Mundo, viu pela televisão. Nasceu o seu filho - justo no dia em que a Italia venceu a Argentina por 2 a 1 - e talvez para ele, pensa, é uma vitória maior. Para ele, no entanto, tem uma outra novidade a espera-lo no inicio da preparação para a temporada que a equipe costumeiramente faz em Brunico. Di Bartolomei sabe que Lidholm busca sempre inventar alguma coisa nos treinamentos para divertir a equipe, para manter a concentração, mas não é muito entusiasta daquilo que o técnico lhe propõe no retiro: na Roma que busca o título italiano deverá jogar como líbero, entre os meio-campistas e a defesa.

Relembra Lidholm:

“ Eu preferia antes de falar fazer os exemplos práticos em campo, fazendo ver aquilo que era e o que precisava ser. Suei um pouco para convence-lo porque acreditava não estar em condições de garantir uma suficiente cobertura para a defesa, e corria o risco de cair em uma enrascada. Mas não houve grande discussão, deveria ser assim e ele no final aceitou ”

Agostino fica perplexo, mas o caráter fechado e reflexivo ajuda, e sobre aquela decisão que muda sua vida esportista acha um jeito de brincar com Franco Tancredi: "claro que o barão tem muita coragem de me colocar atrás", afirmou o goleiro, enquanto encontra os mecanismos táticos.

Mas a coragem a Lidholm chega a experiência:

“ A ideia me veio em mente porque eu mesmo nos últimos anos joguei de libero no Milan, com Biani treinador que, deste modo, alongou minha carreira. A força de Di Bartolomei libero derivada da possiblidade de poder alcançar alguns jogadores em campo com seu lançamento preciso. Além disso, quando avançava fortificávamos o meio campo já muito munido, com um homem a mais em relação aos adversário, e isto fazia a diferença ”

Efetivamente, com este módulo, a Roma passa do 4-3-3 para o 3-5-2 justo graças ao fato que Di Bartolomei pode avançar e assim Conti pode recuar nos momentos de dificuldade. Explica ainda o técnico sueco:

“ Foi uma verdadeira inovação para o futebol italiano. Antes os líberos se chamavam batedores líberos, porque se limitavam a colocar a bola de uma parte a outra do campo. Daquele modo, ao contrário, se criava uma superioridade numérica e se venciam as partidas ”

Inclusive Sebino Nela, sofre as "loucuras" do "barão". O técnico quer que jogue ao lado de Maldera, o outro lateral. O problema é que todos os dois são canhotos e habituados a jogar na esquerda. Então "Hulk", como era conhecido carinhosamente pela torcida romanista, acaba na direita, passa longas jornadas de domingo a treinar cruzamentos com o pé que não é de sua preferencia. As duvidas iniciais terminam com os sucessos e com as primeiras convocações para seleção.

As alquimias técnicas de Liedholm, entretanto, no inicio da temporada provocam alguns incomodos. Ele sabe que não agrada muito aos "adeptos do trabalho", a imprensa. "Todos diziam que era loucura fazer um jogador como Di Bartolomei ali atrás, porque era lento, mas na realidade era um falso lento, fazia a bola correr com velocidade", lembra.

As críticas se tornam mais resistentes quando, depois da partida com o Verona vencida por acaso, os romanistas entram no Marassi de Genova para enfrentar a Sampdoria de Renzo Ulivieri na qual jogam Roberto Mancini, o inglês Trevor Francis e o ex-juventino Liam Brady da Irlanda. Com os dorianos que na primeira rodada haviam batido a Juventus e na segunda a Inter no San Siro, a Roma divide a classificação.

Por sorte os romanistas encontram Conti que ficou de fora das primeiras partidas por cansaço muscular devido a Copa do Mundo, mas Lidholm entende da mesma forma que não será uma parida fácil. Os adversários estão jogando bem, e coloca em vista os seus que, ao contrário, querem se posicionar propositadamente no ataque, e se sentem muito fortes:

“ Vão todos para o ataque também, mas Vierchowod deve ficar sempre nas costas com Agostino, eu recomendo ”

As consequências devem ser respeitadas dentro do ônibus que leva o time para o estádio. Em campo sucede exatamente o contrário. O russo "czar", não quer fazer feio contra sua ex-equipe onde pensa, com razão, de voltar logo. Assim busca o gol e fica a frente, junto com Nela e Maldera. O efeito é anunciado, mesmo porque Falcão não está dando o melhor de si e Pruzzo, o bombear, não marca a três partidas.

Aos trinta e tres minutos do primeiro tempo Roma perde uma bola no ataque e Brady acha o lance do domingo, despacha para Mancini que sozinho, veja que por acaso, justo com Di Bartolomei. O contra-ataque mortífero e o sampdoriano acerta o gol de Tancredi com uma conclusão rasteira: 1 a 0. "Ago" ao intercepta-lo atrás não conseguira.

Termina assim. Vence a Sampdoria que com a pontuação cheia se isola na classificação com dois pontos de destaque sobre o grupão de cima no qual está também a Roma. Nas avaliações do jornal "Messaggero" o enviado Giuseppe Rossi anota:

“ Di Bartolomei nota 6. Teria sido uma partida esplendida, a sua, sem aquele erro que determinou a vitória sampdoriana. Sentiu a distancia de Vierchowod ”

"Fomos punidos por um único erro cometido", explica um Liedholm contrariado pelos jornalistas após o jogo, enquanto defende o capitão giallorosso da acusação de ser muito lento na ocasião do gol:

“ Não era muito lento ele, mas sim bastante veloz Mancini. Agostino resta como nossa arma a mais, se conseguimos ter a melhor sobre os adversários é apenas graças a ele, aos seus lançamentos, as suas moções imprevisíveis ”

"Ele", porém, volta para o vestiário brabo pelo técnico e com um talho no lábio que pede dois pontos de sutura. A aquele da equipe que recita o coro "Erramos tudo", Di Bartolomei acrescenta um desabafo mais profundo:

“ É verdade alguma coisa não funcionou como deveria, principalmente na questão do gol. Não quero repetir aquilo de sempre: é inútil que me deixem sozinho, a ser o ultimo obstáculo. Mancini passou por mim porque pegou velocidade antes de mime porque foi ajudado pelo vento; o lançamento de Brady teve uma trajetória falseada. Tivemos muita sorte domingo passado contra o Verona e muito castigado aqui no Marassi. Dois pontos em duas partidas, talvez era aquilo que merecíamos ”

Nela também deu sua declaração: "sobre o gol, nós os zagueiros estávamos todos a frente", depois precisa e promete: "É apenas um episódio. Jogo muito duro, sobretudo da parte sampdoriana; evidentemente não pensaram na partida da volta...". É sinal que a equipe, entretanto veio, tem espirito de vender e não se deixa abater por uma derrota fora de casa. Além de tudo está de partida para Ipswich, na Inglaterra, onde jogará a partida de volta do primeiro turno pela Copa Uefa, e não tem mais tempo para remorsos. No campeonato só perderá fora de casa mais uma vez. Contra a Juventus, exatamente um mês depois no dia 24 de outubro.

As vésperas da sétima rodada a Roma é a primeira na classificação, isolada. A Juve está a 3 pontos. No meio, a menos dois, Verona e Sampdoria.

Depois da derrota em Genova os romanistas venceram em casa o Ascoli e Cesena graças a um gol de Prohaska e dois de Pruzzo, e estendeu o Napoli no San Paolo por 3 a 1 com gols de Iorio, Nela e Chierico. Aos 72' do jogo contra o Cesena, acolhido por uma grande ovação, fez seu ingresso em campo Carlo Ancellotti, mantido fora do retângulo de jogo verde depois de uma grave lesão no joelho que lhe roubou um ano inteiro.

Lidholm satisfeito das vitorias em casa, mesmo se a equipe não jogou muito bem. Alguma coisa mudou: "Foram partidas que no ano anterior talvez teríamos perdido", sublinhou para o programa da Rai "90º Minuto". Ao analisar a partida com o Cesena estava no Olímpico também Gianni Agnelli, presidente da Fiat, que aos jornalistas disse:

“ Não estou aqui como observador da Juve. Entretanto a Roma é forte. Domingo será difícil para nós, não existe outra coisa a não ser se preocupar ”

Agostino saltou a partida contra o Napoli, e então não pode ver o confronto com o campeão holandês Rudy Krol que entre os partenopeus joga como líbero "moderno" como ele, como quer Liedholm.

Na quarta-feira precedente seja Juventus que Roma jogaram na Europa. Os torineses jogaram pela Copa dos Campeões e empataram com o Liegi e os romanistas venceram diante dos suecos do Norrkoeping por 1 a 0 no Olímpico, graças ao pênalti convertido pelo Pruzzo. O resto da semana passou se preparando para o duelo. Com Tancredi, Di Bartolomei tenta cobranças próximas a área.

Franco Trancredi:

“Nos treinamentos eu me divertia defendendo suas cobranças porque ele não procurava gracinhas, nem cavadinhas, ou algo do gênero, chutava forte e basta. E para alguém que está no gol é a melhor coisa. Primeiro porque defender um chute forte sempre lhe dá satisfação, e depois porque se habituava a uma potência não diferente daquilo. Para as cobranças a nosso favor, com Agostino tínhamos três soluções: botinada traçada com alvo geralmente alto, sobretudo quando era próxima da área; toque lateral de um companheiro antes do arremate forte; bola levantada para ele que chutava de primeira chegando por trás, com uma trajetória que partia alta e tomava efeito ao cair, mortífera para os goleiros”

A Juventus desta temporada está entre as mais fortes da sua história. Conta com seis campeões do mundo. Se apresenta ao comunal de Turim com uma formação de arrepiar: Zoff, Gentile, Cabrini; Furino, Brio, Scirea; Bettega, Tardelli, Rossi, Platini e Boniek. A Roma responde com uma formação inédita: Tancredi, Nela, Vierchowod; Di Bartolomei, Falcão, Maldera; Chierico, Prohaska, Pruzzo, Valigi e Conti.

Que era uma partida difícil se entendia logo, visto que tudo na equipe bianconera funciona a maravilha, sobretudo Boniek e Platini. Na formação giallãrossa somente Prohaska parece com a bola e Falcão demonstra ainda não estar na melhor forma. E enquanto todos esperam o gol da Juve, chega friamente, aos 4 minutos o da equipe de Liedholm. Uma jogada de Maldera desmarcado na jogada de calcanhar de Bruno Conti permite a Odoacre Chierico cabecear para o gol.

A corrida alegre do "roscio", de "Dodo", do "Carota", como é chamado pelos ultras, é incontendível. Durante o resto da primeira fração de jogo a Roma mantém o domínio do jogo e na defesa Di Bartolomei demonstra um final de tempo de equipe candidata ao título. "Ago"combate com coração e físico, como quando contrasta de peito duramente Boniek, réu de uma entrada perigosa sobre Tancredi que saía do gol.

O intervalo leva as equipes para os vestiários e os primeiros comentários na tribuna, onde toma forma o futebol italiano. Presente também Mondino Fabbri, ex-comissario técnico da seleção italiana, aquele da surpresa coreana. Está iludido com a Juve, mas sobretudo exalta o jogo da Roma e o posicionamento por zona, uma tática que no país do "catenaccio" e do contra-ataque ainda é uma sensação e não é vista com bons olhos, quase um atentado a tradição. A cada passo falso dos romanistas é sempre aquele modo de jogar acabando sob acusações. Para a Itália da bola é um duelo ideológico.

"O trabalho que está fazendo o técnico sueco é excelente e, o mais importante, o faz com um grupo de atletas novos", diz Fabbri aos jornalistas. Do outro lado confirma Bettega que antes do jogo havia antecipado: "É uma partida importante, mas é muito cedo porque é decisiva".

Será assim, mesmo porque muitas vezes o destino quer que o caminho do sucesso não seja fácil nem descontado. No segundo tempo bastam apenas sete minutos, entre os 4' e os 11' para virar o panorama. São Tardelli e Scirea, dois heróis da Espanha, a gelar mais uma vez os sonhos da capital. O primeiro coloca Platini em condições, em suspeita de posição irregular, que bate o gol praticamente vazio; o segundo pune Tancredi com um arremate que termina no angulo do gol.

Vence a Juventus por 2 a 1, mesmo porque Zoff desvia para escanteio uma cobrança de Di Bartolomei endereçada ao canto rasteiro. Liedholm é caustico no microfone que Gian Piero Galeazzi lhe impõe na saída de campo: "Querem a chave do encontro? Então vos digo que a analise da partida termina quando tomamos um gol em posição mais que suspeita. O resto não conta, deixamos pra lá a tática por favor"

A fuga da Roma no entanto é freada. O Verona treinado por um tal de Osvaldo Bagnoli, surpresa do ano, a alcança na ponta da tabela com os torineses a um ponto. O golpe é forte, mas o destino da Roma está ligado, além do duelo com os bianconeri, tem com os nerazzurri pisanos. Toca a eles, de fato, jogar no Olímpico uma semana depois, para especular a consistência técnica e psicológica de Agostino e companheiros.

Ancelotti joga como titular pela primeira vez na temporada. Quem vai ao estádio a tantos anos, para ver os giallorossi, está habituado as ambições que se esvaziam rapidamente. Os começos empolgantes e as quedas repentinas. Parece ser assim também esta vez, visto que Todesco, na esquerda pisana, escapa em contrapé solitário aos 25 minutos ludibriando um atônito Tancredi, faz o gol chutando em diagonal. Não obstante o intervalo e a conversa com Liedholm nos vestiários, a meia hora do final da partida o resultado da partida é sempre o mesmo: 1 a 0 para o Pisa em casa.

Como contra o Verona, fica a cargo do árbitro. Desta vez é Maldera que cai dentro da área depois de um contraste com Occhipinti. Falta clara, e Barbaresco aponta o pênalti. A cobrar toma posição Pruzzo que bate e empata. Em pouco minutos a Roma cresce e o Pisa se apaga. Mais uma vez o "bomber" e Maldera fecham a partida com um 3 a 1 que presenteia os romanistas com dois pontos inesperados e o topo da tabela pelos contemporâneos empates de Juve, Toro e Verona. Bom sinal.

O futebol é uma das poucas distrações de um outono difícil para a Itália e não apenas. Em setembro foram trucidados em Palermo o general Carlo Alberto dalla Chiesa e sua mulher, Emanuela Setti Carraro. Em outubro a Argentina espanta a si e ao mundo: na periferia de Buenos Aires descoberto um cemitério clandestino onde haviam sido sepultados 440 desaparecidos, opositores vítimas do regime militar; com o passar dos meses foram encontrados milhares.

Se as regras do futebol são aquelas "velhas" dos dois pontos por vitória, também todo o resto pertence a um mundo que está mudando. Aquela divisão em blocos entre Leste e Oeste; aquilo que sacode novembro, depois da notícia da morte de Leonid Breznev, secretário do partido comunista e chefe da URSS, herdeiro de Lenin, Stalin e Kruscev. Aquele que comemora, depois de onze anos de prisão, é libertado na Polônia Lech Walesa, líder do Solidarnosc. Em fevereiro de 1983 Italo Calvino publica o romance Palomar.

O campeonato chegou além da metade do seu caminho. No Olímpico entra em campo o Napoli de Ramon Diaz que não vive um bom momento na classificação na penúltima posição com quinze pontos.

Na liderança, ao contrário, a ordem é a seguinte: Roma 28, Verona 25, Inter 24 e Juve 22. Desde a partida com o Pisa a performance giallorossa é impressionante, no pleno respeito da famosa "média inglesa". Sempre vitoriosa em casa batendo Fiorentina, Inter, Genoa, Cagliari e Sampdoria; empatou fora com Udinese, Catanzaro, Avellino, Torino e Verona.

Di Bartolomei marcou outro gol, contra o Genoa. A cobrança de falta na abertura do segundo tempo acabou no angulo fixando a resultado em 2 a 0. O capitão falou no microfone da Rai uma breve declaração sobre o momento magico da equipe; um comentário sucinto e serio, a sua maneira, mesmo se um pouco banal: "Somo bem treinados, é uma coisa normal".

Se para a imprensa esportiva devesse viver com os comentários de Agostino não venderiam um exemplar. Sempre moderado, sem enfeites. Todo contrário de Falcão, espumante e sorridente, pronto para a piada. Os dois são diferentes não obstante agora sejam os verdadeiros motorista Roma que vence não se amarão jamais o suficiente, pelo contrário.

O duelo com os partenopeus marca a vigésima rodada. É a primeira de quatro partidas que verão os romanistas jogarem três vezes em seu estádio. Contra o Napoli, precisamente, Benfica e Juventus; uma pelas quartas de final da Copa Uefa e a outra pelo campeonato. Precede ao duplo compromisso o jogo fora diante do Cesena. Luigi Agnolin apita o jogo para a Roma que coloca em campo Tancredi, Nela, Vierchowod; Ancelotti, Falcão, Maldera; Conti, Prohaska, Pruzzo, Di Bartolomei e Iorio. Para os azzurri jogam Castellini, Marino, Citterio; Ferraris, Krol, Celestini; Vagheggi, Vinazzani, Criscimanni, Diaz e Pellegrini.

Os sessenta mil do Olímpico com os ouvidos colados em seus rádios portáteis. Jamais como neste ano são importantes os resultados que vem dos outros campos, mesmo porque sob o terreno de jogo romano, o resultado para sempre descontado. Aos doze minutos do primeiro tempo, porém, Diaz parte em contra-ataque e bate Tancredi; ao mesmo tempo a Juve marca contra Fiorentina. Os pontos de vantagem são muitos e falta mais de uma hora para o fim, mas alguns arrepios, no estádio, regem o mesmo.

"Abnegação, abnegação". Agostino repete sempre aquela palavra, aos jornalistas, aos companheiros, a quem quer que lhe fale do momento de ouro da equipe e de um feito histórico, o título, que parece se aproximar, domingo pós domingo. E pensa isto também agora, e pensa novamente que a sua ducentésima partida na Série A não pode terminar daquela maneira. E a Roma perdendo por um gol, recomeça. Mostra "abnegação" e respeito pelo adversário, que até aquele momento não era considerado um granqué.

Precisamos de pouco para revirar a fritada; o faz Sebino Nela que tira a sombra da terra e, saltando quase um metro, ensaca de cabeça uma cocada fortíssima. Se sacodem as redes, Roma, o estádio. Passam dez minutos e Carlo Ancelotti domina uma bola e despacha de primeira um arremate indefensável no angulo, ali onde Gatto Castellini certamente não pode chegar. A paz reina sobre os romanistas, pelo menos por mais quinze minutos.

É um jogo chave, no campeonato, a partida onde a Roma, talvez pela primeira vez, acredita que pode realmente chegar lá. "Agora somos nós a lebre", dirá no final do encontro Di Bartolomei, "somos nós a equipe que corre na frente" de um Verona que perdeu ficando a cinco pontos distantes e de uma Juve que venceu mas permanece a menos seis.

No segundo tempo Agostino dá a alma e determina a partida. Primeiro com um grande e pontente chute rasteiro de longuíssimos trinta e cinco metros que acaba nas costas do goleiro. Depois com sua típica cobrança de falta em que Conti apoia e que não dá chances para o goleiro Castellini. Pruzzo marca o quinto gol, Marino o segundo do Napoli e a partida termina assim, com a curva Sul que rende mérito aos adversários entoando o coro: "Resterete in serie A". Uma profecia destinada aos visitantes.

A classificação não muda. Inacreditavelmente a Inter perde para o Torino em casa e o Verona em Avellino: Roma 30, Verona 25, Inter e Juve 24.

O comentário de Gianni Melidoni, no jornal "Messaggero" de segunda-feira, fotografa o clima que respira a cidade:

“Quando em maio recordaremos o dia do título, este penúltimo domingo de fevereiro ficará por primeiro entre os tantos para a contemporânea e decisiva derrocada das mais vizinhas concorrentes e por isto que simbolizou e tornou a tona, a real e inconfundível superioridade do jogo por zona, aplicada em exclusiva seleção por Liedholm, sobre o velho mísero jogo assim dito italiano imposto com o Napoli pelo folclorístico Pesaola, que reassume certos pensamentos fora de moda por consolidada reproposição: Eu desafio entretanto Liedholm (lendo o jornal que tenazmente responde ao cavalheirismo) a não marcar Diaz e Pellegrini ad personam através dos pés grandes severos de Vierchowod e Nela”

No ar existe sempre contraste entre a Roma e o mundo, entre zona e o catenaccio. Aquela equipe vestida de vermelho que está dominando o campeonato, que pertence a uma cidade que de bola vence mas não vence, reforce fôlego aos sustentares do futebol moderno, saídos derrotados e prostrados pela vitoria italiana na Espanha, construída sobre a marcação a homem e as individualidades.

No vestiário giallorosso circula uma garrafa de champanhe. Carlo Ancelotti explica ao jornalista que não é pelo título: "Não, o champanhe é pelas duzentas partidas de Agostino. A concorrência está muito próxima para brindar outra ocasião".

A equipe, pelo menos sobre isto, se divide. Para Pruzzo, Nela e Iorio os jogos foram feitos. Os outros freiam. Entre os que brecam está, obviamente, Di Bartolomei, que porém faz lembrar os seus dois gols, além do resto: "Não me lembro em que ano realizei dois gols, mas foi em Peruggia. O Napoli no inicio nos colocou em dificuldades, depois, quando achamos a medida, conseguimos chegar a um nível de jogo inesperado. Porém ainda faltam 10 partidas até o final, e devemos continuar trabalhando. O primeiro gol o dedico a minha mulher: eu vi o espelho e mirei o angulo. Estou realmente contente por quanto estou me saindo na nova função e quero agradecer o treinador e meus companheiros".

Na página de avaliações lhe é atribuído um 7,5 com um subtítulo eloquente: "O melhor". A única nota diferente, enquanto Liedholm calcula na casa dos trinta por cento as possibilidades de conquistar o título, um comentário de Enzo Bearzot. O comissário técnico da seleção italiana admirado pelo jogo da Roma, única como candidata principal ao título, deixa entender que para Agostino e para Sebino Nela as portas da Azzurra continuarão fechadas: "Não posso levar para seleção jogadores só pelo fato que o time deles estão na primeira colocação".

E da outra parte os senadores da Juventus não o permitiriam. Com eles no dia 6 de março está fixado o duelo do ano. Breves notas: "650 milhões já embolsados pelo jogo contra o Benfica no dia 2 de março, 400 para aquele contra a Juve. A pré venda dos ingressos prosseguem em ritmo muito sustentável.

É de 905 milhões, no final, a arrecadação. O estádio está lotado. Os pontos de vantagem da Roma sobre a Juventus são de cinco e 3 em cima do Verona. Contra o Cesena os romanistas empataram graças a Tancredi, que defendeu um pênalti, enquanto a Juventus derrotou a Udinese, o Verona e o Pisa. A vitória significaria deixar os atuais campeões italianos fora da corrida final.

Na quarta-feira precedente não correu tudo bem. Contra o Benfica, treinado também por um sueco chamado Sven Goran Eriksson e que pratica o jogo por zona, Di Bartolomei e seus companheiros perderam por 2 a 1. Nada grave, acontece, mas é um sinal que não agrada a ninguém: a Roma não é imbatível em casa.

A fanfarra dos atiradores precede o ingresso das equipes. A primeira surpresa chega das formações: Liedholm desmonta o tipo de posicionamento inserindo Nappi e Valigi no lugar de Maldera e Prohaska. Para todos parece uma moção defensível temerosa. Trapattoni, ao contrário, leva para o Olímpico a mesma equipe do jogo de ida com apenas uma variação, Bonini no lugar de Furino. No restante coloca em campo Zoff, Gentile, Cabrini; Brio, Scirea, Bettega; Tardelli, Rossi, Platini e Boniek.

O jogo é muito esperado, mas no fundo ocorre justamente como quer o treinador da Roma: se adormenta. A Juventus "que deve fazer a partida", não consegue jamais chegar perto do gol de Tancredi. O único susto é provocado por um cão policial, elogiado pela curva Sul, que morde Brio quando as equipes voltam para campo depois da pausa. No segundo tempo a musica não muda. Aos 58' Pruzzo se lesiona e é substituído por Iorio. O empate parece um resultado descontado quando após um cruzamento de Conti, Falcão salta e cabeceia batendo Zoff. O delírio sobre a arquibancada, Juve a sete pontos. Como em Turim, porém, o orgulho bianconero e algumas questionáveis decisões do arbitro revoltam a rodada. Primeiro com Platini empatando a partida com uma bela cobrança de falta que acaba no angulo de Tancredi; depois é por fim Brio, o stopper, em um carrinho com suspeita de posição irregular, que acaba marcando a quatro minutos do final da partida. É drama. A Juve novamente vence e fica a 3 pontos. Por sorte Verona e Inter também perderam em Catanzaro e Pisa respectivamente.

Justo sob a Torre pendente a Roma deverá apresentar-se na próxima semana. Na mala leva consigo duas derrotas consecutivas em casa e a dúvida, grande, que o sonho infelizmente tenha acabado.

Relembra Liedholm:

“Foi difícil superar o desconforto e entender como se comportar. Havíamos jogado por oitenta minutos a um gol apenas, depois falta ao nosso favor que o árbitro transformou em cobrança para Juve desequilibrando a nossa defesa; fazendo com que empatassem e depois a vitória. Era complicado para o time digerir isto uma situação que arriscava se repetir: sempre próximos da conquista mas depois, sobre o mais belo, sofrer uma derrota”

"Nos amedrontamos", confessa Franco Tancredi, "mesmo porque não tínhamos a nossa frente um timinho"

Dois dias depois, o grupo se concentrar para o treinamento. E ali aparece o líder da equipe. Entre estes está justamente o menino de Tormarancia, agora crescido, que não tem intenção alguma de deixar se iludir sobre o mais belo desejo que acaricia desde pequeno. O técnico sueco tem em mente uma estratégia, e por toda semana decide não dizer uma só palavra.

"Assim pensava de fazer crescer", relembra, "uma força de reação interior capaz de sair pra fora no momento de jogar em Pisa".

Explica melhor Tancredi:

“Com Di Bartolomei e Falcão começamos a conversar assim que nos vimos em campo, e eles foram os propulsores da equipe durante toda a semana. Naquela ocasião demonstram saber transmitir a sua força e personalidade a todo o grupo. Falavam conosco, no curso dos treinamentos eram aqueles que mais se empenhavam e nos incitavam. Sobretudo na terça e na quarta-feira foi difícil treinar com a mesma intensidade e concentração de antes; o pensamento voltava sempre para o domingo anterior, quando perdemos em cinco minutos um título já conquistado”

Com este espírito a A.S. Roma para a vez de Pisa. Com este espírito, mas também com algo a mais: Acompanha o time mais de cinquenta mil torcedores, muitos dos quais já sabem que não encontrarão lugar no estádio, na Arena Garibaldi. É importante, porém, estar de qualquer forma. Quem sabe extendido ao sol, radinho na mão, sobre a praça dos Milagres (Piazza dei Miracoli).

"Pisa, Pisa". Liedholm dirá sempre, no curso dos anos, que a partida da verdade jogou-se ali, para o histórico domingo 13 de março de 1983.

Chierico substitui Pruzzo lesionado. Voltam, obviamente, Maldera e Prohaska. Pelo Pisa jogam Mancini, Secondini, Massimi; Vinello, Pozza, Mariani, Berggreen, Occhipinti, Sorbi, Casale e Todesco.

Dois homens levam os romanistas ao sucesso. Um deles é Falcão que aos doze minutos do primeiro tempo marca o mesmo gol que fez na Juventus, mas do lado oposto: cruzamento na área e cabeçada peremptória. O outro é Di Bartolomei que aos sessenta minutos, depois de uma sobra na jogada entre Ancelotti e Mariani, recolhe e, da intermediária, dispara para as redes uma botinada. De nada adianta o gol de Berggreen, cinco minutos depois. A classificação agora tem: Roma 33, Juventus 30, Verona 28. Faltam sete jogos para o final do campeonato e um total de 14 pontos.

Escreve o jornal Il Messaggero:

“De Pisa, que realmente estava em jogo um campeonato, a Roma faz saber que está. Venceu e combateu uma partida muito difícil a grande força dinâmica adversaria e para aquele peso imponderável, mas sufocante que os fatos recentes, acrescentados a toda uma série de meios passos fora de casa, haviam determinado”

Depois da partida o Barão contempla:

“É sempre complicado comentar o resultado de uma disputa assim: Eu digo que se não é verdade que o Pisa não merecia perder é da mesma forma certo que a Roma mereceu a vitória... No fundo depois da reação nerazzurra veio o gol de Agostino para dar-nos a tranquilidade”

Assim foi. Di Bartolomei ficou contente por este gol, mas sobretudo está feliz porque viu sua equipe reagir, porque no fundo o seguiram, deram razão ao capitão. Em campo dirimiu ordens e reprovou alguns. Não omite a dizer ao cronista em campo que o entrevista:

“Nenhum de nós estava condicionado pelo resultado precedente. Se viu pela tranquilidade com o qual nos colocamos em campo. O meu gol? Fora importante naquele momento, espero de fazer ainda tantos. Sim, no gol que sofremos adverti Ancelotti. Se Carlo tivesse passado a bola para Falcão certamente não teríamos sofrido contra-ataque. No entanto se tratou de segundos”

No dia seguinte a Roma parte para Lisboa. Deve fazer o jogo de volta com o Benfica e tentar mudar o panorama da derrota do primeiro jogo por 2 a 1. Para quem pergunta qual equipe colocará em campo, Liedholm responde:

“Certamente haveremos novidades. Temos Righetti, Faccini e Valigi que merecem fazer experiência jogando”

É o sinal que o técnico já decidiu que hora convém pontuar decisivamente sobre o campeonato, arriscando quem sabe sair da competição européia. É mais importante fazer o time retomar fôlego: Agostino não jogará, afirma Liedholm:

“Deverei escolher e, naturalmente, optarei pelo campeonato. Por isto na partida de Portugal deixarei Di Bartolomei no banco. Quero mantê-lo concentrado e repousado para o campeonato. Ele tinha pernas fortes e pesadas, mesmo se não parecia, e entretanto para render bem, deveria estar em grande condição. Talvez ele não tenha digerido bem, entretanto empatamos em 1 a 1, com uma bola na trave de Conti e sem que o arbitro nos concedesse dois pênaltis”

De fato em Portugal jogam Righetti e Faccini. Descansam Ancelotti e Agostino. Para Roma não basta um gol de Falcão depois de ter batido Ipswich, Norrkoeping e Colonia com uma magnifica partida no Olímpico, e sai da Europa quase por escolha. Mesmo porque depois de meia hora perde Conti depois de uma maldita entrada na canela.

É esta, no fundo, a preocupação maior para Liedholm e o presidente Dino Viola, o qual verifica nos vestiários as condições do ala giallorosso, que no entanto jogará no domingo seguinte. Mas o comentário final do Barão não deixa dúvidas no ar: "Em abril serão duas partidas a menos, melhor assim".

O dia primeiro de maio é festa, obviamente. Mas no ano de graça 1983 é inclusive domingo, e no Olímpico jogam Roma e Avelino. Faltam três partidas para o final do campeonato.

A estratégia do técnico romanista se revelou fundada. Depois de Pisa, a Roma empatou duas vezes, em casa diante da Udinese e em Florença. Depois retomou e bateu o Catanzaro com o sexto gol de Di Bartolomei na temporada aos 39 minutos, depois de uma cobrança de falta, traiu o goleiro Zaninelli que esperava um chute de dois tempos. Enfim empatou em Milão com a Inter.

A Juventus está sempre a três pontos. No título agora, acreditam todos. A matemática poderá inclusive presentear na rodada se, por acaso, os bianconeri perderem em casa diante da Inter. Do sucesso em casa com a vítima da vez, os irpini, não era dúvida pra ninguém. E assim foi, de fato, graças a dois gols anotados, por acaso, de Agostino e Falcão.

Que longa corrida, aquela de Di Bartolomei depois ter batido Tacconi. Uma corrida terminada em joelhos com os braços para o céu e o abraço dos companheiros, no meio de campo. E que caos sobre as arquibancadas na noticia de que a Inter estava vencendo por 2 a 0.

A Roma aos quinze minutos é campeã italiana com duas rodadas de antecedência. A Juve diminui, mas a Inter faz o terceiro. A vinte minutos do final, no Olímpico já não se segue mais nada daquilo que acontece em campo, a partida real, por uma vez, se está jogando longe dali.

Mas a Juve é a Juve, sempre, e acaba com a festa. Mais uma vez diminui e depois empata. A Roma está a quatro pontos. Na próxima rodada, em Genova, bastaria um empate e a matemática costuraria um escudinho (scudetto) sobre as camisas romanistas pela segunda vez na história. Inclusive sobre aquela de Agostino que porém não se escurece ainda. Mais por superstição que por convicção. "A Roma pode chegar ao porto?", lhe pergunta Galeazzi para o programa "90º minuto", na saída de campo:

“No porto chegaremos com certeza, mas é importante chegar com a bandeira e por isto não devemos, obstante a tudo, nos perder agora. Vamos ver se a sorte nos dá uma mão”

Bruno Conti lembra:

“No ano do título italiano fomos a frente de domingo em domingo, e quando começas a vencer começas também a acreditar. A esfera girava em um modo inacreditável, como dizia Liedholm fazíamos "suar a bola" tínhamos jogadores que haviam uma grande posse de bola. Agostino vinha de trás, fazia lançamentos, suas cobranças de falta e conclusões a distancia eram um terror para todos. Quando a bola chegava sobre seus pés e ele tinha diante de si um pouco de espaço, eu fazia finta de ir em sua direção, mas depois mudava a rota partindo para dentro; Agostino me fazia encontrar a bola ali na frente, e quando chegava nela conluia em jogada aérea. Eram lançamentos perfeitos”

As 17:43 no estádio Marassi de Genova o campeonato das duas equipes termina com uma rodada de antecedência e com uma colossal invasão de campo. Genoa e Roma empataram em 1 a 1, com gols de Pruzzo - de cabeça depois de um cruzamento de Di Bartolomei - e Fiorini. Os primeiros permanecerão na Série A, os segundos conquistaram o título. Uma conquista esperado na capital a quarenta anos.

As 17:43 apita o arbitro D'Elia de Salerno. Apenas Vierchowod, Di Bartolomei, Nappi e Tancredi conseguem salvar as cuecas e a camisa dos braços dos torcedores. Liedholm tem uma certa idade e quando consegue chegar aos vestiários é pego de surpresa. O povo romanista ao seu redor em massa - cerca de quinze mil pessoas - o atirou para os ares e comemoraram como puderam.

Lembra o Barão:

“Estou feliz sobretudo por ter superado o abraço da multidão”

Relembra de uma partida sem importância, que ninguém queria perder e ninguém queria vencer, depois recorda a faixa que apareceu sobre as arquibancadas: "Melhor um título como lobo que cem de Agnelli". Relembra um campeonato árduo, elogia o presidente Viola. Depois foi obrigado a deixar de lado, também porque o seu time, aqueles que "agora podem jogar sozinhos e são fortes", lhe estão jorrando litros de champanhe sobre a face antes de abraça-lo, todos de roupas debaixo das duchas.

Quando se conquista um título as cenas são sempre as mesmas. Jogadores seminus que gritam e cantam, coros, slogan e felicidade. Vencer em Roma, porém, tem também outro significado e se sente. É uma vitória "contra" as equipes do Norte, como se diz satisfeito o presidente Viola; é uma vitória da zona contra o catenaccio; mas sobretudo é uma vitória de quem a vencer justamente não está habituado. Melhor, de quem fez da derrota e da sua capacidade de aceita-la uma força imbatível, na torcida e em campo.

De derrotas, dos tempos daqueles campinhos de areia da periferia, da bola pesada que lhe passada seu pai quando criança na areia da praia de Lavinio, Agostino sofreu muitas. Calejou, como se diz em Roma. E agora, sentado sobre um banco, tenta achar lucidez, para aquilo que pensa, enquanto Bruno Conti com uma toalha em mãos se mete entre ele e o cronista a fazer palhaçadas, "sempre o mesmo Bruno".

Para ele, ao contrário, aquela festa longínqua da sua cidade talvez não lhe agrade tanto. Pensa já no próximo domingo, quando toda a capital, ou pelo menos uma boa metade, comemorará o feito da equipe na qual ele é capitão. É aos torcedores, então, que lança o primeiro apelo:

“Procurem estar tranquilos, não cairem no vandalismo. Colocar pra fora a vossa alegria, vossa satisfação, vosso entusiasmo, mas faça-o com civilidade, sem disturbar aqueles que em Roma estão vindo por outros motivos, para admirar a cidade. De hoje em diante todos os olhos estão direcionados para nós, nossa cidade e nossos torcedores. Vamos dar um exemplo de civilidade”

Capitão em toda situação. É isto que Di Bartolomei demonstra, quer demonstrar. Assim, ao cronista que lhe pergunta quando entendeu ter vencido, ele responde:

“Hoje quando o árbitro apitou o final da partida. Porque existe sempre uma dúvida para um homem de bom senso”

Ele pensa ser um homem de bom senso e, realmente, naquele clima de festa responde também ao seu presidente, Dino Viola, que sustentou com os jornalistas de estar seguro da vitória já depois do jogo contra o Napoli:

“Cada um tem suas idéias. Cada um pensa de maneira diferente. Eu sempre tive dúvidas e acreditem, somente hoje, quando o árbitro apitou, me senti fora de um pesadelo”

Não, não é um futebol normal, Agostino. Para ele aquele campeonato fora também um pesadelo, algo muito maior que um torneio esportivo, algo que tenha haver com a própria existência. E o diz quando pelo pesadelo vem compreendido o testa a testa com a Juve:

“Não, não apenas, aquilo, mas o medo de não conseguir”

Di Bartolomei, um dos poucos romanos da equipe, sabe bem aquilo que quer dizer este título muito além do significado esportivo. É a vitória da presumida indolência romana contra a operosidade do Norte, de David sobre Golias, da capital chacoteada sobre quem permeia direitos legais e superioridade morais e civis. A vitória contra quem, no passado, havia impedido a mesma possibilidade de conquista. Quem sabe negando um gol válido em um confronto direto, a duas rodadas do final.

Agora, porém a Roma conseguiu, ele conseguiu e pode inclusive conceder algo a si mesmo. E então declara:

“Uma vez tanto falo de mim e digo que o gol marcado em Pisa fora determinante para a vitória final. Liedholm teve razão do principio ao fim. Me inventou como líbero e venceu. Como equipe merecíamos antes este sucesso. Tudo etapas maravilhosas estas do título, mas a parte final alguns vieram a chorar, não podemos esconder”

E claro Agostino não fica indiferente ao voltar para Roma. O DC9 que traz os campeões da Itália aterriza no aeroporto Ciampino as 21:34 e ele é o primeiro a sair na escadinha. Trinta mil pessoas, talvez até mais, esperam e esbravejam suas felicidades. Tentam parar o ônibus com os carros, querem abraçar seus heróis recebidos pelo prefeito Ugo Vetere e Giulio Andreotti.

Bettino Craxi, líder do Partido Social Italiano e futuro presidente do conselho, manda um telegrama: "estou muito feliz por esta conquista da Roma que o faz de modo convincente e merecido".

E Franco Zeffirelli, conhecido torcedor da Fiorentina e defensor paladino das cruzadas anti-Juve: "E viva a Roma, a Juventus começa a pagar o peso de suas culpas". Quem odeia os bianconeri se junta aos giallorossi e com aquele seu modo de jogar futebol. O resto da cidade torcedora se concentra na praça do Povo (Piazza del Popolo), sob uma faixa de De Bello Gallico: "O Império continua".

E lá festa também. Tem toda uma semana para organizar a grande quermesse do Olímpico. A última partida do campeonato prevê uma partida diante do Torino que não significa nada, visto que os romanos já são campeões e os granadas estão na oitava posição, no meio da tabela. Seis, sete horas antes, em um maio romano quentíssimo, muitos torcedores já tomaram seus lugares no estádio.

O borrão é respeitado em tudo e por tudo. Os romanistas vencem facilmente com Pruzzo convertendo pênalti, Falcão e Conti. Para o Torino o gol bandeira fica a cargo de Hernandez. Na passarela final Liedholm faz desfilar inclusive o goleiro reserva Superchi e o meia reserva Giovanelli, "únicos" da equipe a não ter jogado nenhuma partida até aqui.

E o resto é torcida. Uma cenografia fantástica. A invasão de campo, por todos esconjurada, por sorte não estava a equipe, Agostino Di Bartolomei na frente, pode conduzir numerosas voltas ao redor do campo, carregando a bandeira tricolor italiana.

O apelo do capitão giallorosso a demonstrar maturidade nas comemorações foi avante e ele orgulhoso disto demonstra quando apresenta a equipe, jogador por jogador, ao presidente da republica Sandro Pertini, o qual comenta:

“Cumprimentos pelo título que mereceram jogando muito bem. Com o vosso sucesso não fizeram feliz apenas a cidade, mas toda uma nação. Porque quando se assiste uma grande festa do esporte, como de fato é esta, a comemoração é de todo país”

Não é assim. É a festa de uma equipe que tem mais inimigos que irmãos.

Seja como for, foi. Foi bem. E Agostino já pensa no futuro, no próximo ano, na Copa dos Campeões. É ainda dia quando o presidente Viola presenteia os torcedores com um ultimo motivo para sorrir. O anuncio que todos esperavam: Falcão ficará na Roma. Melhor: "Os vencedores do título ficarão".

Não seria verdade, no verão todos os setores seriam retocados. Deixa a equipe Herbert Prohaska, que deve deixar lugar ao forte meio campista Antonio Carlos Cerezo (Toninho), visto que podem registrar apenas dois estrangeiros por equipe. Com ele vão embora também Vierchowod, que volta para Sampdoria, Valigi e Iorio. Reforçando a "equipe" que deverá disputar a primeira Copa dos Campeões de uma equipe da capital, chegam Ciccio Graziani, os zagueiros Oddi e Bonetti e ainda o ponta Vincenzi, jovem promessa revelado no Pistoiese.

A Roma é sempre forte, como a Juventus com a qual os giallorossi retomam o duelo que apaixona todos os esportistas. A Lazio volta para a Série A e desta forma haverá o derby.

O semanal americano "Time" proclama proclama personagem do ano o computador pessoal, e em Napoli nasce o primeiro bebê, uma menina, concebida em proveta.

A temporada da Roma é ótima, assim como aquela de Agostino, que marca cinco gols no campeonato, um contra a Lazio. Mas o verdadeiro objetivo de Liadholm é a Copa dos Campeões. Assim como no ano precedente o técnico sueco trocou a Copa Uefa pelo campeonato italiano, desta vez procede o contrário, deixando a disputa nacional para a Juventus que concluirá o certame com 43 pontos dois pontos a mais que a Roma vice-campeã.

A decisão, no seu coração, Nils toma logo depois do primeiro jogo europeu. Os giallorossi são chamados para jogar diante do Göteborg, equipe sueca, detentora da Copa Uefa, sem sombra de dúvidas entre as cinco primeiras equipes do continente. E Lidholm acrescenta:

“Foi uma das grandes partidas que minha equipe disputou. Aquele momento em que entende indubitavelmente que poderíamos chegar a algum feito”

Em efeitos Vincenzi, Conti e Cerezo, neste ano com um gol maravilhoso, matam as esperanças suecas de passar o primeiro turno. O 3 a 0 final não gera muitas esperanças. Em casa, o Göteborg não vai além dos 2 a 1, com Pruzzo que marca o gol determinante.

A cavalgada na competição não para, e os romanistas liquidam facilmente o CSKA de Sofia vendendo primeiro fora e depois em casa por 1 a 0, gols de Falcão e Graziani. Nas quartas de final, com o Dínamo de Berlim, o mesmo panorama vivido com os suecos: 3 a 0 em casa e 2 a 1 fora.

No dia 11 de abril de 1984 a Roma voa em direção da Escócia para a semifinal com o Dundee United. Não é uma bela partida e os romanistas, que encontram pela frente um campo reduzido artificialmente em pântano na noite, sofrem pesadamente os ataques adversários. O resultado final não deixa espaço para uma reversão. 2 a 0, marcados pelo ala esquerda Dodds e o zagueiro Stark.

Quinze dias depois, a equipe de Liedholm jogam a temporada no Olímpico. A Roma coloca em campo Tancredi, Nappi, Righetti; Nela, Falcão, Maldera; Conti, Cerezo, Pruzzo, Di Bartolomei e Graziani.

Para passar é preciso fazer três gols sem sofrer nenhum. O estádio, como tradição, está lotado. É Pruzzo, em jornada de graça, a alterar o placar rapidamente marcando o primeiro gol. E é sempre o "bomber" cinco minutos antes do final do primeiro tempo, a fazer 2 a 0 deixando as equipes em igualdade, com uma esplendida reação.

Existe apenas um gol, agora, a dividir a Roma da final da copa mais prestigiosa. Uma final que - assim decidiu a sorte - se jogará justamente no estádio as apêndices da Monte Mario.

Quinze minutos do segundo tempo. Agostino Di Bartolomei pega a bola nas mãos e posiciona sobre a marca do pênalti. O Olímpico está em silencio. Poucos instantes antes Roberto Pruzzo fora derrubado dentro da área. O árbitro Vautrot não tem duvidas.

Observa Mc Alpine entre as traves, Di Bartolomei. Atras dele fazem o mesmo jogadores do Dundee e Roma.

Pruzzo o cobrador de penaltis da equipe autor de dois gols, deixou a cobrança para Agostino. O capitão não pensa duas vezes. Em palio a vitória. Cobra certeiro, a esquerda. Como se diz, e se escreve nestes casos:

“o goleiro de um lado, a bola do outro”

A Roma é finalista da Copa dos Campeões da Europa. Jogará no dia 30 de maio contra os ingleses do Liverpool no Estádio Olímpico de Roma.

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A U T O R
  • Giovanni Bianconi


    Jornalista do jornal "Stampa", nasceu em Roma em 1960: escreveu as obras; Baldini & Castoldi; A mano armata, vita violenta di Giusva Fioravanti;Ragazzi di malavita, fatti e misfatti della banda della Magliana; e, com Gaetano Savatteri L'attentatuni,storia di sbirri e di mafiosi.


  • Andrea Salerno


    Jornalista e diretor de tv, nascido em Roma em 1965. Chefe redator do mensal "Reset", publicou Il rapporto di Los Angeles, la violenza in tv; la biblioteca del giovane democratico (Theoria); per un pugno di libri (Nuova Eri). É autor dos programas televisivos: "per un pugno di libri", "saranno maturi" e "La Mostra della Laguna".

    @SalernoSal

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