Chuteira de Ouro: mérito próprio

"Antes preferia jogar atrás da linha de frente. Me satisfazia quase mais fazer as asssistências para meus compnaheiros concluírem. Depois, no entanto, quando me tornei centro-avante de função, descobri que fazer gols me agrada. E agora não quero mais deixar"

História de futebol de todos os dias. Futebol de beco, de calçada, de fazer dribles entre bancos de jardim. Em geral quem desde criança parece possuir as manhas do enfant prodige, é posicionado naturalmente a frente, ali onde é preciso fazer gol. Deste ponto de vista, no entanto, Francesco Totti fora uma excessão. Se é verdade que - como lembrou a mamma Fiorella - o seu protegido homenzinho começou a provar dos toques logo depois que aprendeu a dar seus primeiros passos e a grande técnica de base o colocou rapidamente na zona central do campo, ali onde nasce a jogada.

Mesmo quando o futebol para ele começou a se tornar mais sério, seus primeiros maestros entenderam logo que aquele menininho parecia ver o desenrolar da ação antes que quaquer outro. Parecia intuir espaços onde a maioria de seus companheiros via apenas um emaranhado de pernas. E então, como predestinado a camisa número dez, Totti fora posicionado muito antes como meia de criação (trequartista). Muito bom tecnicamente, rápido, ágil, aparentemente um manhoso, mas implacável quando se tratava de partir para o gol, e aquela sempre pareceu sua posição natural.

Mas para criar um jogador de uma modernidade polivalente precisa considerar outro fato. Assim, quando Francesco chegou nos juvenis, meio que como uma surpresa, Sergio Vatta - treinador do setor - tentou fazer o menino jogar diante da defesa. Do tipo Andrea Pirlo, para uma melhor ilustração. Um experimento que não foi solitátio, considerando que quando Totti fora convocado para atuar na seleção italiana sub 21 de Rossano Campaglia, a sua (não feliz) experiência foi contrastada inclusive com experimento táticos diferentes da sua natureza.

Naquela idade na Seleção a potencial grandeza de Totti ainda não havia sido percebida e assim em uma equipe rica de gente de plena creatividade ofensiva - Del Piero, Morfeo, Locatelli, Pirlo, Flachi, Pirri: verdadeiros talentos e meninos que depois se perderam pelo caminho - Francesco entedeu ou de emigrar sobre a faixa, ou ainda desenvolver também na Itália aquela posição de mediano que na Roma juvenil desempenhava.

"O fato é que Francesco não apenas era o mais sólido fisicamente, o melhor nos contrastes e lançamentos com precisão, mas também o mais preparado a seguir qualquer indicação tática, bravo em roubar bolas e recolocá-las no ataque. Um tipo de jogador que onde colocar vai se dar bem"
Giampaglia



Verdade. E talvez porque a sua função naquela seleção nunca fora muito definida, Totti sempre ocupou uma posição para suprir.

Um histótia diferente quando começou a vestir com uma certa frequência a camisa titular da Roma. Sua colocação era sempre ao centro, com permissão de variar, até que no comando técnico chegou Zdenek Zeman. No tridente varado do treinador boêmio, de fato, um Totti assim com uma cara mais robusta e potente encontrou colocação no lado esquerdo da disposição ofensiva do time, com obrigação de buscar o centro e concluir de direira ou favorecer as escapadas dos companheiros nos quais faria a assistância. Resultado? Como vimos, sua média realizativa se impenou relativamente, contribuindo desta forma a projetar o número dez sobre a ribalda do fubteol nacional.

Com o desembarque de Fabio Capello na capital, a evolução tática do capitão registrou um novo passo adiante. Se na equipe do título italiano a função de Totti era aquela de meia de criação (trequartista) predileto (na frente dele brilhavam Gabriel Omar Batistuta, Vincenzo Montella e Marco Del Vecchio), com a inexplicável queda do argentino e a chegada de Antonio Cassano, o treinador coemçou a pedir com mais frenquência para Francesco jogar como atacante - naturalmente com permissão para recuar - alinhando-se ao seu parceiro semanal de linha ofensiva.

O êxito? Muitos gols no ativo, que não bastam porém para tirar as perplexidades do capitão.

"Eu jogo onde pede o treinador, porém me sinto mais meia (trequartista), prefiriria estar posicionado atrás dos atacantes de ofício"

Uma função entre outros que nunca abandonou nem na Roma tão menos na seleção italiana, jogando também ainda com uma ponta apenas de referência, como ocorrera na conquista da Copa do Mundo de 2006.

Em todo caso, um título italiano e uma Copa Itália fizeram entender que a idéia de Capello não era algo peregrino e se saberia depois mais a frente, quando - terminada a carreata de treinadores precários de 2004/05 (Prandelli, Voeller, Del Neri, Conti) - sobre o comando da Roma chega Luciano Spalletti.

Como muitas coisas da vida, o caso tem uma função importante na nova (e mais recente) evolução do emprego tático de Totti. No 4-2-3-1 proposto pelo técnico toscano no início do campeonato o capitão se movia para meia central logo atrás do único atacante, pronto para inserir na área sobretudo a distribuir a bola aos companheiros em condições de marcar.

Em função das lesões e outros contra-tempos, porém, as vésperas de um jogo em dezembro diante da Sampdoria, a Roma se encontrou sem centroavante de ofício. Aquele que melhor poderia se adaptar - em função da estrutura física e capacidade técnica - era sem dúvidas Totti, que descobre muito do seu potencial em uma posição já executada anteriormente, mas com situações táticas diferentes.

Francesco não deveria mais agir com as costas para o gol como anteriormente e com os atacantes muitas vezes distantes, assim tem o dever de segurar a bola para que os companheiros se infiltrem na frente. Não, a Roma começava a ser orquestrada de forma compacta, muito curta, com os setores próximos entre eles, de maneira a poder rapidamente distriubuir a bola de primeira aos incursores mais velozes que se projetavam naqueles espaços que o movimento de Totti sabia criar. Depois, para as assistências, ficava a seu cargo, com a sua garantia de sempre. Desta forma, Francesco se colocava continuamente em condições de chutar a bola de muito perto do gol o que lhe facilitava a vantagem de sua média de realizações, que acumularam níveis impensáveis desde o ano do título italiano.

"Se tivesse jogado desde o início da minha carreira naquela posição, provavelmente teria chegado a trezentos gos. Agora que descobri como é gostoso fazer gols quero continuar assim, porque marcar é tudo no futebol. Para os próximos anos a Roma o centroavante já tem, mesmo porque nesta posição não preciso correr tanto e visto que já possuo mais de trinta anos não me desagrada"

Na realidade, a melancólica temporada recém terminada nas mãos de Spalletti obrigou a renunciar o predileto 4-2-3-1 para dar vida ao assim conhecido "a rombo" (o 4-3-1-2) ou ainda aquele da árvore de natal (4-3-2-1). Ajustes que viram Francesco movimentar-se algumas vezes de modo diferente em relação a quanto fez nas temporadas anteriores, mas sem incorporar de fato a sua função de centro-avante atípico que soube desempenhar.

No fundo isto foi um percurso de vida, muito além de profissional.Por isto, recentemente, Totti se adaptou em poucas palavras aos treinadores que marcaram a sua história giallorossa.

"De maneira especial, sou grato a todos. Boskov me fez debutar e me ajudou a me inserir gradualmente. Mazzone com as suas chineladas me ensinou a ser um jogador, tutelando-me inclusive nos dias livres. Bianchi, traído pelas suas tantas vitórias na Argentina, acreditava que precisava apenas dos seus troféus para se sair bem, e depois talvez tinha pouca simpatia pelos romanos. Zeman me fez crescer muito seja a nível tático que atlético. Me tornei mais ágil e melhorei minha resistência. Com Capello ocorreram altos e baixos no relacionamento pessoal, talvez incompatibilidade de caráter, mas seu profissionalismo não se discute, levou a Roma a uma mentalidade vencedora. Spalletti nos fez acreditar como grupo, sabendo gerir bem a mim e os meus companheiros"

E justo por isto nestes anos spallettianos que os abençoados gols mais belos da carreira do capitão vieram.

"Até o momento escolho aquele de Milão contra a Inter (outubro de 2005) e aquele em Genova sobre a Sampdoria (26 de novembro de 2006). São dois gols belissímos, porém decidir por um dos dois não é simples porque são opostos. Em um, aquele no Marassi, é ao vôo de esquerda de uma posição quase impossível. No outro parti do meio campo sozinho, venci o contraste com Cambiasso, depois me desvencilhei de Materazzi e Cordoba, fiz finta de chutar forte e encobri Julio Cesar. Claro, descrever-lhes é simples, enquanto fazê-los é mais complicado. Quando se entra em campo alguém pensa: tomo a bola, me desvencilho de todos e vou fazer o gol, no entanto dificilmente consegue. Então o que conta é seguir o instinto"

Instinto de matador de goleiros, como aquele que lhe valeu a Chuteira de Ouro, troféu de melhor artilheiro europeu que conquistou ao final da temporada 2006/07.

"Nunca teria imaginado poder ter vencido um premio do tipo, mas agora quero continuar neste caminho"

Uma estrada adornada de beijos:

"Aquilo que reverencio toda a vez que marco: por amor a Cristo e porque me casei"

Beijos sempre com tinta auri-vermelha, obviamente. Descontado? Tudo somado, menos do que pareceria.

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A U T O R
  • Massimo Cecchini


    Natural de Teramo, nascido no dia 27 de maio de 1961, jornalista do jornal de Milão Gazzetta dello Sport especialmente incumbido de acompanhar a Roma e a seleção italiana, além de colaborações a agência Ansa e os cotidianos "La Nazione" e "Il Centro", é comentarista esportivo da rádio Montecarlo, Radio 105, AGR e Radio Radio.

    @maxcek

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