Tentações: as despedidas

“Em 1996 quase fechei acordo com a Sampdoria e estava para ir embora. Em 2003, por exemplo, Silvio Berlusconi poderia ter sido meu presidente, assim como no ano seguinte faltou muito pouco para que eu não tomasse o caminho do Real Madrid”

A vida por um fio: o que teria acontecido se…?

Acontece com todos. Com todos aqueles que vivem uma história de amor incondicional, e não poderia ser diferente para ele. A um certo ponto a vontade ocorreu a tentação de virar a página, de ir embora, de buscar outros ares. Talvez porque seu talento não tenha sido reconhecido como deveria, quem sabe porque estímulos novos alimentam curiosidades, ou ainda simplesmente porque existe a vontade de vencer, e em Roma, - historicamente - sempre foi difícil isso.

Todas estas nuvens passaram pela cabeça de Francesco Totti. Não com frequência, ao contrário, poucas vezes. Mas quando um treinador não o entendeu, um ambiente pareceu não ter entendido completamente suas qualidades, uma sociedade pareceu não estar a altura de manter certas promessas, naqueles dias, a camisa giallorossa para ele teve um peso diferente, excessivo.

A primeira vez para Francesco isso foi rapidamente compreendido. Com apenas vinte anos, quando Carlos Bianchi desembarcou em Trigória como profeta de uma nova Roma. Uma Roma que dispôs a Totti o número 17 - por ele muito odiado - porque como dizia o célebre argentino, na America do Sul é um número que traz sorte.

Mas já escrevemos que a dividi-lo não foi a cabala nem a superstição. Muito mais. E naquele período o homem forte era Bianchi o Vencedor, não ao certo uma promessa giallorossa a ser ainda avaliada e por fim - parece inacreditável dizer agora - não amado por boa parte da torcida romanista.

“Alguns me chamavam de gordo, dizia que era um chicão, e isso me causava transtorno”



Transtorno a um certo ponto era o relacionamento por sua vez com o treinador, tanto que Franco Sensi - seduzido pelo fascínio do argentino - no inverno de 1997 havia decidido ceder Totti a título de empréstimo para a Sampdoria, que no verão buscava compor a era pós Roberto Mancini, o ídolo de uma geração blucerchiati.

“Quase chegamos a um acordo. Iria logo embora, já na abertura de mercado, e vivi dias difíceis. A minha cabeça já estava em Genova e depois de lá não sei o que teria acontecido. Com certeza não voltaria mais para Roma. Depois, entretanto, veio um torneio que mudou as cartas na mesa”



Aconteceu no dia 9 de fevereiro de 2007, um dia no qual Francesco não deveria nem mesmo ter mais sobre si a camisa giallorossa. A seleção italiana sub 21 do técnico Giampaglia, de fato, já preparava a concentração para o jogo contra a Inglaterra, mas houve uma surpresa: a despeito de todas as previsões Totti não fora convocado. Inútil esconder, o Troféu Cidade de Roma - um triangular com duração de quarenta minutos do qual participavam Ajax e Borussia Monchengladbach - parecia quase uma segunda chance para quem queria se afirmar sobretudo no panorama nacional.

Não apenas. Tinha também novamente um gosto amargo de ter que engolir. No Ajax jogava o célebre Litmanen, que nos planos romanistas teria vindo no lugar de Francesco na temporada sucessiva. Atacante válido, o finlandês, que na ocasião marcou inclusive um belo gol no Borussia de fora da área. Mas o verdadeiro fenômeno da noite foi apenas um: Totti. O futuro capitão da Roma primeiro fez um gol no time alemão da faixa dos vinte metros e depois afundou os holandeses com um extraordinário balãozinho que determinaria a conquista do torneio para a Roma. Moral da história? Saindo da Tribuna do Olímpico, o presidente Sensi foi claro:

“Totti é melhor que Litmanen, não o cederei mais”



E assim foi, visto que pouco depois Carlos Bianchi não seria mais técnico do time. Nils Liedholm, que treinou a Roma do segundo título italiano logo depois comentou:

“As pessoas pagarão ingresso só para vê-lo em campo”



Teria ocorrido rapidamente e tudo isto pesaria muito nestes obscuros desejos da casa Roma. Isto é, no final jamais teriam entendido, levando em consideração hoje, a possibilidade de ver o seu capitão longe da capital, mas por consideradas vezes Totti teria encontrado cidadania em hipótese oposta: Totti tentado a dizer adeus.

Antes que isso acontecesse, porém, era preciso passar mais seis anos. Naquela fração de tempo na Roma ocorreria muitas situações, importantes como a equipe ser treinada por Fabio Capello, a conquista do terceiro título italiano da história do clube, e, acrescentando a isso, dois meses depois, a Supercopa Italiana. Os sinais do declínio econômico sensiano, porém, estava começando a se manifestar e assim - antes do verão de 2003 - o capitão (entre o sério e o brincalhão) lança uma frase destinada a desforra:

“Quando era criança Berlusconi poderia ser meu presidente. E ainda pode ser”



Ocorre um verdadeiro terremoto, que Francesco, depois da campanha de mercado giallorossa nas vindas de Chivu e Carew, explicou deste modo:

“A minha, era para ser uma frase de estímulo para a sociedade para ser ativa no mercado. Agora posso dizer que estou satisfeito”



De fato, na temporada após as aquisições a Roma chegou perto de conquistar o título, batida apenas (não por acaso) pelo Milan de Berlusconi. Na prática, porém, aquele que foi o canto do cisne da era cappeliana e até de um certo modo de conduzir as campanhas de mercado por parte da sociedade giallorossa. Do ano sucessivo, de fato, a crise financeira da companhia Italpetroli - a holding sensiana que detinha o controle do clube - entrava na fase mais crítica da sua história, e o redimensionamento veio rapidamente.

Por isso em junho de 2004 Totti voltou sobre o argumento de um possível adeus.

“Eu no Milan? Jamais diga jamais. A sociedade deve contratar dois ou três campeões para continuar competitiva, caso contrário poderei me sentir a vontade das promessas que sempre fiz”



Palavras fortes, que porém não puderam surtir o efeito esperado. A Roma dos investimentos faraônicos faz parte do passado e tudo somado, no coração de Totti, até mesmo as sirenes rossonere começavam a perder importância. Do horizonte, de fato, estava se aproximando outras. Algo mais no imaginário popular: o Real Madrid.

A combinação que se criou na Espanha entre a política de aquisição dos Galáticos e a chegada de Arrigo Sacchi na corte dos Merengues na função de consultor, havia levado rapidamente a questão Totti para suprir a herança de Zinedine Zidane. O cortejo foi acirrado, culminado no envio para a casa de Totti de uma camisa branca madrilenha com o número 10 e a estampa do nome de Totti.

O salário proposto, obviamente, era na casa da grande tentação, tanto que o próprio capitão da Roma, em uma coletiva de imprensa ocorrida no Santiago Bernabeu disse:

“O futebol inglês não me agrada muito. Se tivesse que jogar fora a única equipe que levaria em consideração seria o Real”

Claro, a ambição de se afirmar na equipe mais famosa e prestigiosa do mundo naquele momento tinha um peso importante na cabeça de Francesco, porém existia outro ponto a ser levado em consideração nisso tudo relacionado ao talento emergente do futebol italiano Antonio Cassano, que na Roma nutriu um grupo de estima cada vez mais entusiasmante.

“Já não tinha um bom relacionamento com uma parte da torcida. Haviam me rotulado como um jogador normal, nunca era decisivo, errava nas partidas que contavam, para muitas pessoas não era o capitão ideal. Todas situações que me feriam. Não digo que já não tivesse ocorrido um acordo, e faltou pouco, mesmo porque o contrato era o que existia de melhor, quero dizer, muito mais do que ganhava na Roma. Porém para mim não se tratava de valores, caso contrário teria ido para Madrid. Queria demonstrar que não jogava por dinheiro, mas por amor a esta camisa. Vencer com a equipe do coração não tem preço. Não me convenceram o dinheiro do Milan e do Real, não me tocou a ficar iludido ao me deparar com a lista dos jogadores candidatos a bola de ouro, e meu nome cada vez mais distante do topo. Claro, ficava amargurado, depois porém em onversa com minha familia e com alguns amigos, todos me ajudaram a entender como as frustrações da vida são, porém não se pode renunciar. E sobretudo que os sonhos não se podem mudar”

As sirenes, entretanto, podiam também parar de tocar. As costas disto existia a última bajulação que estava maturando naquele período: Inter. Confessou em 2006 o próprio Totti em uma entrevista televisa para Giovanni Minoli, explicando que na Itália o maior duelo interista era sua bajulação excessiva, mesmo porque a grande série de títulos e copas de Massimo Moratti ainda estava por começar.

Mas esta foi apenas uma pequena tentação. A última para um fora de série que - juntamente ao milanista Paolo Maldini - demonstrou uma fidelidade de outros tempos.

Totti como Giampiero Boniperti (Juve), Gianni Rivera (Milan), Sandro Mazzola (Inter), Gigi Riva (Cagliari), Giancarlo Antognoni (Fiorentina) e pouquíssimos outros grandes expoentes ou incomparáveis românticos de uma época. Assim por dizer, fora de moda, mas que fazem bater o coração ficando, de maneira inconfundível, inesquecíveis.

Uma resposta a pergunta inicial deste capítulo no entanto podemos dar. O que teria acontecido se Francesco tivesse ido jogar no Milan, Inter ou Real Madrid?

Certamente teria vencido muito mais e ganho muito mais, porém devemos dizer que não teria sido feliz o quanto foi. E tudo isso, no fundo, é um estado de animo que não poderia jamais ter um preço.

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A U T O R
  • Massimo Cecchini


    Natural de Teramo, nascido no dia 27 de maio de 1961, jornalista do jornal de Milão Gazzetta dello Sport especialmente incumbido de acompanhar a Roma e a seleção italiana, além de colaborações a agência Ansa e os cotidianos "La Nazione" e "Il Centro", é comentarista esportivo da rádio Montecarlo, Radio 105, AGR e Radio Radio.

    @maxcek

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