Herbert Larry Burgess

In Vino Veritas! Tome um gole e direi quem és... Pois é, a paixão dele era uma garrafa de vinho e imagine o cenário dos anos trinta em uma Roma cheia de filósofos ao som de um stornello la casa di Irene e um time sensação que estava no forno porvir regados a melhor da culinária romana. Situação mais melancólica impossível, quando procurado em seu quarto de dormir em Tivoli acabou tropeçando com um talho feio na altura da orelha... só o Mister Burgess.

Nem Matt Damon faria melhor que este estranho inglês buon vivant tido como um dos melhores técnicos que passaram pela Roma segundo o próprio preparador físico Angelilo Cerretti, e olha que de treinador este nosso querido massagista viu muitos.

Herbert foi contratado pessoalmente pelo carismático "sôr Renato Sacerdoti" depois das lambanças de seu antecessor Guido Baccani que tinha muita teoria mas pouco desenvolvimento na prática. Com uma considerável bagagem trazida de seu país e dos trabalhos desenvolvidos no Milan e no Padova que inclusive contava também com um trabalho realizado em conjunto com William Garbutt e Vittorio Pozzo na preparação da seleção italiana em Paris nos jogos Olímpicos de 1924. Aliás foi o próprio Garbutt que o indicou a diretoria do clube, depois da sua saída.

Seu método era baseado sobre jogadas em velocidade, alternando completamente os lados de seus meias e volantes, da segunda linha, de maneira cruzada, e trocando suas posições em si, como uma espécie de revezamento. A ordem era ocupar os espaços livres, e ousar com avanços ao fronte dando suporte ao ataque ou simplesmente centrando o gol. Um futebol moderno que acelerava todo o processo do típico método WM utilizado nos 20 e 30.

Eficiente preparador físico também, que trabalhava sobretudo a parte muscular do atleta fazendo com isso que a equipe tivesse rendimento até o final da partida, um dos seus segredos, no novo e longo campeonato de pontos corridos, que exigia condicionamento acima de tudo.

Seu único problema, como elucidado no início era o álcool. Talvez este o motivo dos romanistas, habituados sempre a fazer as contas com o garçom, de o querer tão bem. A exemplo uma vez, enquanto a Roma vencia com sobra uma equipe da província, Burgess é repreendido pelo árbitro da partida a tomar o caminho do vestiário. O inglês, no entanto, fez de conta que havia abandonado o campo, e se posicionou nas escadas que dão acesso que minuto sim, minuto não, dava uma espiadinha no jogo: os torcedores que achavam engraçado a situação toda vez que o técnico aparecia faziam um coro: cú-cô, cú-cô, cú-cô! O árbitro não entendia o que estava acontecendo e Herbert ficou vermelho como um pimentão, muito mais de quando se embriagava nos botecos da cidade.

Frequentava regularmente um boteco próximo a Piazza Vittorio, que era perto de seu apartamento, e estranhamente fazia uma ronda pelos corredores e quartos onde o time ficava concentrado, de uma em uma hora a partir das dez da noite. Cada vez que voltava era em uma angulação corpórea diferente. Nos jogos fora de casa era comum que ligassem no hotel onde a equipe estava hospedada pedindo para virem buscar o técnico desfalecido em cima de um balcão, algo realmente humilhante. Por amor a Baco, o inglês, que entre outros nunca aprendeu a falar italiano, tinha seu modo de intercalar bizarro, por vezes arriscando a própria vida.

Fernando Eusébio, atacante da Roma na época uma vez relembrou um episódio:

Uma noite ele encheu o porre. Voltou tarde para o alojamento e, ao se deitar acabou tropeçando e prendendo a orelha entre o arame do estrado e o ferro de sustentação da cama. A orelha talhou pela metade. Na manhã seguinte Cesare Fasanelli, primeiro a entrar no quarto do treinador, o vê sobre o leito, branco como um fantasma, o lençol todo ensanguentado: parecia um assassinato. Cesare se choca por um instante; e por sorte apareceu De Micheli, logo atrás para segura-lo.
A cena era realmente forte. Burgess embriagado enfaixou sua cabeça com uma toalha como um turbante. Convencido que seria preciso apenas aquilo para reestabelecer a orelha. Pelo contrário, por pouco a hemorragia não havia o mandado para o criador. O hospital confirmou onde o levamos as pressas.
E ali, o técnico ainda abatido, insistia em dizer ao médico que não era nada, que a orelha já havia voltado ao normal"

No dia 3 de novembro de 1929 o mítico Campo Testaccio abria pela primeira vez na histórias as suas portas e naquela data Burgess estava na tribuna acompanhando a vitória sobre o Brescia. Dias depois era possível os romanistas verem o inglês na borda do mesmo campo esbravejando e posicionando os jogadores sobre Meazza na vitória por 2 a 0 sobre e Ambrosiana (Inter). Era a Roma de Ferraris IV, Bernardini, Degni, Volk e Chini. Uma equipe completamente imutável, comparado a temporada 1928/29 quando era guiada por William Garbutt. Em dezembro, 8, no Cinodromo, o estádio Rondinella, território laziale, hospeda o primeiro derby romano pelo Campeonato italiano da história. Dos 10 setores do estádio, a torcida giallorosssa ocupa nove, e Burgess entra definitivamente para o coração dos romanistas com a primeira vitória graças ao gol de Volk a quinze minutos do final da partida. Foi dele também a maior goleada no Testaccio fazendo 9 a 0 sobre o Padova no dia 6 de março de 1930.

Sua temporada seguinte foi estratosférica na Roma. As partidas de sétima arte, como a sacolada sobre a Juventus por 5 a 0 no dia 15 de março de 1931 que virou filme. Vice-campeã italiana com 51 pontos, 4 a menos que a detentora do título, colecionando 22 vitórias (a líder tinha apenas duas a mais), sete empates e apenas 5 derrotas (a líder tinha 4). O time foi o artilheiro da competição com 87 gols (a líder 79) e o menos vazado: sofreu 31 gols (a líder 37). Destaque também a canção popular Campo Testaccio composta pelo poeta Toto Castellucci fruto desta grande campanha que impulsionava milhares e milhares de torcedores abarrotando as redondezas do bairro Testaccio.

Com toda aquela atmosfera criada não haveria dúvidas que o torcedor romanista colocaria na cabeça que era chegado a nossa hora. Depois de uma terceira colocação com Garbutt, Burgess põe a Roma a um passo do título e obviamente tensão e expectativa somam-se em escala exponencial para 1931/32. Entretanto, havia mais um capítulo no caminho chamado Copa da Europa Central devido ao vice campeonato na temporada anterior. A Roma jamais havia competido internacionalmente, e com o espírito que circulava na cidade, era também uma chance de de mostrar o orgulho giallorosso fora da bota também. No campeonato a gangorra dos resultados deixa nítido que o objetivo se divide e entre um e outro a Roma escolha os dois e o time acaba se afundando em resultados ruins. Com a eliminação da competição internacional nas quartas de final diante do First Vienna o relacionamento com a torcida se esfria a diretoria se divide e Herbert vê o adeus eminente.

Estes os traços de um mito que talvez só teve a infelicidade de ser interrompido, ou não ter tido o êxito merecido pela doença do alcoolismo, vai saber, mas que de forma alguma manchou o prodígio trabalho e o carinho que conquistou de toda a torcida romanista. Os números são impressionantes e prova disto. Burgess com a elegância inglesa, se despede dos seus atletas um a um com muita emoção e cumprimenta cordialmente seu substituto, o auxiliar técnico Janos Baar, desejando-lhe êxito na próxima partida.

Com todo seu eminente vício, faleceu aos 71 anos em 1954 e depois da Roma nunca mais se ouviu falar de seu legado

@zamacwb

 

BURGESS

B I O S

  • Herbert Larry Burgess


    Nascimento: 25/02/1883
    Cidade :Openshaw

    Função: Técnico

    Estréia: 24/11/1929
    Roma 2-0 Ambrosiana

    TEMPORADA JGS VIT EMP DER
    1929/30 26 12 4 10
    1930/31 34 22 7 5
    1931/32 9 5 2 2
    TOTAL 69 39 13 17

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